Jornal do Commercio: Ajufe arquivamento de ação contra juíza

    O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) arquivou ontem, por maioria de votos, a reclamação disciplinar apresentada pela Advocacia Geral da União (AGU) contra a juíza da 6ª Vara Federal de Porto Alegre (RS), Ana Inês Algorta Latorre.

    Em março de 2009, a magistrada determinou a prisão do procurador regional da União no Rio Grande do Sul por crime de desobediência.

    A prisão foi determinada em razão do descumprimento da decisão na qual a magistrada determinou a entrega do suplemento alimentar (MSUD2) a um bebê, em 48 horas. A decisão só foi cumprida 48 dias depois da concessão da tutela antecipada, mais precisamente duas horas após a prisão da autoridade federal, que foi solto após concessão de liminar em habeas corpus. Na reclamação ao CNJ, à qual foi apensada pedido similar do Fórum Nacional da Advocacia Pública, a AGU sustentou que houve excessos e que a prisão foi ilegal.

    Em seu voto, o corregedor nacional de Justiça, ministro Gilson Dipp, reconheceu que a decretação da prisão foi imprópria e que a independência funcional do magistrado não pode servir de abrigo à ilegalidade ou ao arbítrio, mas afirmou que, no caso em questão, "a falta não decorreu de conduta indevida ou comportamento impróprio da magistrada, mas sim de um conflito de emoções e valores". Segundo Dipp, a magistrada se viu “na última fronteira entre as instituições públicas e o direito à vida”.

    O ministro-corregedor sugeriu que os juízes ajam com cautela nessas circunstâncias, até mesmo porque é controversa, na jurisprudência, a possibilidade de decretação de prisão de funcionários públicos nesses casos. “Não se mostra adequada a instauração de reclamação disciplinar porque nem toda transgressão resulta em conduta indevida ou comportamento impróprio.

    Por economia processual, sugiro que a eventual reprimenda seja o próprio teor do meu voto”, sugeriu Dipp.

    Apenas os conselheiros Jorge Hélio Chaves, Jefferson Kravchychyn, Marcelo Nobre e Marcelo Neves votaram pelo recebimento da reclamação e consequente instauração do processo disciplinar. Os demais conselheiros acompanharam o voto de Dipp. A análise do processo consumiu duas horas e meia da sessão realizada na manhã de ontem.

    O presidente da Ajufe, Gabriel Wedy, acompanhou todo o julgamento, ao lado dos juízes federais José Francisco Spizzirri e Roberto Veloso. A defesa da juíza foi conduzida pelo escritório Bottini & Tamasauskas Advogados Associados e coube à advogada Danyelle Galvão fazer a sustentação oral.

    Ao acompanhar o relator, o ex-presidente da Ajufe juiz Walter Nunes enfatizou que os juízes federais são os que mais se deparam com situações deste tipo, nas quais o Poder Público, em muitos casos, só cumpre a decisão judicial quando quer. “O litigante-mor no Brasil é o Estado, tanto que os juizados especiais federais estão se transformando em balcão de atendimento do INSS.

    A ordem de prisão não foi somente mal endereçada, foi ilegal. Não estamos passando a mão na cabeça da juíza, mas há casos e casos. Nesse caso, a abertura de revisão disciplinar contra a juíza seria uma injustiça”, disse o juiz federal, que atua como conselheiro do CNJ.

    FRONT. No mesmo sentido foi a intervenção do conselheiro Leomar Amorim. “A eficácia das decisões judiciais não pode ser relativizada quando a parte contrária é a Fazenda Pública. No caso em questão, a juíza ficou no front e a vida da criança estava em risco. Além disso, o argumento de que a aquisição do suplemento alimentar dependia de licitação não se sustenta. Era caso de vida ou morte e, em casos urgentes, a lei prevê dispensa de licitação”, sustentou Amorim.

    Último a votar, o presidente do CNJ e do STF, ministro Cezar Peluso, fez observações consideradas relevantes para os juízes federais presentes.

    Peluso afirmou que, no caso em questão, estavam em jogo três valores fundamentais: a independência dos magistrados, a liberdade de ir e vir da autoridade federal contra a qual a ordem de prisão foi expedida e a vida humana. O ministro esclareceu que a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) e o Código de Processo Civil (CPC), ao contrário do que sustentou a corrente contrária, não preveem sanções ao magistrado que erra ao aplicar a lei.

    Ele lembrou que a responsabilização do juiz só ocorre quando este age com dolo ou fraude, ou quando comete impropriedade de linguagem em suas sentenças. “A impropriedade de que trata o artigo 44 da Loman é a impropriedade de linguagem. Os erros in judicando ou in procedendo não são faltas disciplinares. Os juízes erram. Erramos todos os dias, e se os nossos erros de interpretação e de aplicação de leis pudessem ser punidos pelas vias disciplinares, não trabalharíamos tranquilos. Na prática isso inviabilizaria nosso trabalho e uma sociedade civilizada não pode viver sem juízes independentes. O ato em questão foi ilegal, sim, mas não foi motivado por dolo ou fraude, o que justificaria a punição disciplinar”, ressaltou.

    Texto: Jornal do Commercio
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